Pessoal, bom dia! Hoje, infelizmente, precisarei trabalhar no horário do nosso segundo encontro. Vou deixar minhas impressões gerais sobre o livro pra não passar em branco.
A leitura como um todo me prendeu bastante. Eu gostei muito de como somos o tempo todo colocados como parte do fluxo daquele mundo mas sem ser onisciente, tendo dúvidas de como as coisas acontecem e ficando perdidos em vários momentos; me parece que é a sensação geral da população (no sentido de que se a história não fosse narrada pelo Souza, poderia ser narrada por qualquer outra pessoa e teríamos um desfecho muito próximo do dele). Em algum momento depois do meio do livro eu entendi que aquele redemoinho de coisa ruim só iria piorar e estava só esperando pra entender como terminaria a jornada do Souza. Confesso que o último capítulo, senti aquela pontada de esperança quando eles sentem o cheiro da chuva, mas logo em seguida me senti traído. O delírio era coletivo; não existe esperança nenhuma na narrativa toda. O fato de no meu outro comentário ter desconfiado do Souza como narrador só se agravou conforme a narrativa ia se desenrolando e eu gostei muito disso! No fim, não tenho certeza se o furo da mão realmente sumiu ou não, se é que ele existiu em algum momento. Às vezes me pego pensando nisso ainda.
A Elisa foi uma personagem legal de acompanhar por um momento. Parece que ela faz o que consegue (nada) com os recursos que tem (nenhum), e tá tudo bem, porque ela sempre viveu dessa forma e não carrega o peso de ter vivido minimamente melhor no passado.
Acho que não tenho muito o que falar sobre a Adelaide. A relação dela com o Souza, vista por essa ótica não-sincera e “entorpecida” faz com que eu sinta que ela estava correta no fim. Muitas vezes precisamos nos afastar de situações onde não conseguimos mais manter a ordem pacífica e oculta que criamos, porque não controlamos ela, não controlamos o ambiente onde ela acontece. Isso me faz refletir até onde podemos ir e o que podemos fazer para alterar nossa realidade. As decisões políticas, econômicas e ambientais do livro não estavam dentro do alcance de nenhum dos personagens que acompanhamos, nem mesmo do sobrinho. Será que, visto que eles vivenciavam lentamente e dolorosamente o fim daquele mundo, o melhor não seria simplesmente aceitar e fingir ter controle do que você pode? Ou então entender que não existe passado ou futuro, e que só o momento deve ser “vivido” do jeito que dá mesmo.
Adorei mesmo a escolha do livro, foi um ótimo começo pro clube! Comecei a ler Holocausto Brasileiro e escrevendo esse texto, me veio uma citação já da introdução do livro, feito pela Eliane Brum: “É preciso perceber que nenhuma violação dos direitos humanos se sustenta por tanto tempo sem a nossa omissão, menos ainda uma bárbara como esta”. No trecho ela fala sobre o Colônia, mas poderia estar falando sobre nosso direito de transitar livremente, impedido pelos cidadãos dessa São Paulo. Poderia estar falando sobre o acesso ao saneamento básico e alimentação, abrigo, segurança e tudo que consta naquela cartilha do desenvolvimento sustentável da ONU. São diversos exemplos de coisas erradas e sentimentos revoltantes que, no fim, internalizamos e aprendemos a lidar. Até onde somos omissos com tudo que acontece ao nosso redor? Até quando seremos omissos?